terça-feira, 4 de junho de 2013

Bairro Assombrado (Parte V)

(Anteriormente:
"Estava com sangre seco por quase todo o corpo. Mas aguentei-me, agora o que importava era sobreviver, se é que isso poderia realmente acontecer.")

Vi uma porta pequena de ouro à minha frente. Era a saída do túnel. Outra vez, vários pensamentos deram voltas na minha mente. Onde iria eu agora? Um lugar melhor que os outros?
Uma parte de mim tenha um pouco de curiosidade em saber o que era, mas a outra não. Como diz o ditado,
"A curiosidade matou o gato" e simplesmente não queria ser o jantar de hoje.
Devagar, abri a porta ouvido de seguida um ruído fininho. Não foi algo assustador ou doloroso para os meus ouvidos, pois já estava habituada.
Entrei pela pequena porta e seguidamente a menina veio atrás de mim. Levantei a cabeça e vi um lugar, digamos com isto tudo, muito mais bonito e requintado. Parecia ter sido um lugar de réis e rainhas, o salão onde as damas dançavam com os seus longos vestidos. Agora o material estava sujo e gasto, coberto de pó. Era escuro mas a luz da lua entrava pelas cortinas esburacadas. O chão não era de madeira e era cinzento, ou talvez branco mas com o longo dos anos o material veio a estragar. Havia um enorme sofá gasto de cor vermelha ao fundo da sala juntamente com umas cadeiras com as mesmas características. Havia uma mesa enorme do outro lado. Era um amarelado escuro sem brilho onde em cima estavam uns pratos, copos e umas flores mortas. As paredes era iguais ao chão e nelas se encontravam quadros perdidos com o tempo.

Dei uns passos em frente olhando para todos os lados vendo cada pormenor, cada detalhe até o mais mínimo dos requintes. Mesmo com o estado em que está, estou maravilhada.
Vi um pequeno armário que se encontrava ao canto daquela maravilhosa sala. Cheguei-me perto dela ajoelhando-me. Era um pequeno armário de madeira. Destacava-se naquela sala pois era de tons rosas. Era como aqueles armários que se compram para guardar as roupas e os sapatinhos dos bebés. Abri-a e dentro continha umas fotografias e uma caixinha de ouro. Vi as fotos e via uma família feliz. Em todas as fotos apareciam as mesmas pessoas. Era uma senhora de tamanho médio com longos cabelos pretos, depois um senhor alto com cabelos pretos e curtos, e por últimos estava uma menina pequenina com o cabelo médio preto. Em todas as fotos os três tinham sorrisos enormes.
Olhei atentamente para a menina da foto e, não sei porque, reconhecia a sua carinha, a sua postura e o seu sorriso. Agarrei-a e levantei-me. Ouvi uma voz atrás de mim a dizer "Deixa isso" Disse a menina. Virei-me para ela e perguntei-lhe "Sabes quem são?" ao mesmo tempo que apontava. Ela demorou algum tempo, mas com um simples bafo respondeu "Não". Suspirei e deixei a foto onde estava. Mas de seguida os meus olhos apontaram para a caixa de ouro. Abria com cuidado e lá se encontrava umas pulseiras de ouro, brincos de prata e um colar com um coração. Vi que o coração dava para abrir mas mal consegui. Deixei aquilo de lado e virei-me. A menina estava sentada no sofá a descansar.
Olhei para ela e vi que ela focava o seu olhar na parede à sua frente onde não havia nada. Pensei se ia ou não, mas lá decidi ir. Aproximei-me dela e sentei-me na cadeira que estava a direita do sofá. Fiquei a olhar para ela. De repente ela vira a cara e pergunta-me brutalmente "Que queres!?". "De quem é isto?" perguntei-lhe. Ela baixou a cabeça fixando o olhar nos seus pés. Vi uma lágrima a cair no chão seguida de outra. Ela limpo-a rapidamente. "Bem... Esta casa era dos meus avós e este era um lugar secreto onde eu vinha sempre que precisava" Fez uma pausa. "Mas antes nada era assim".
Olhei para baixo pensando no que podia ter acontecido. Onde estarão os avós...? Ou melhor... Onde estão os pais dela?
"Os teu pais?" Perguntei-lhe.
Ela congelou. De repente ela começou a fazer uns barulhos gigantes e horríveis. Começaram-me a doer as orelhas pois parecia que iam arrebentar. "Para!" Gritei-lhe com dom e piedade. Não me ligou nenhuma.
Com aquilo tudo comecei a ver tudo a andar à roda e só me lembro de vê-la a olhar para mim com um olhar que matava a todo ser humano.
Cai redonda no chão e as últimas palavras que ouvi da boca dela foi "Tens que ter cuidado com as palavras".
Sentia-me tonta e já tinha os olhos fechados. Sentia-me consciente ou seja que morta não estava.


(Amanhã publico a parte 6)

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