sexta-feira, 28 de junho de 2013

Bairro Assombrado 2 (Parte III)

(Anteriormente:
"Do nada ouviu-se uma voz fininha, aguda e arrepiante, de menina a dizer "Bem vinda de volta Molly". O meu mundo parou aqui.")

Detive-me naquele instante. Os meus olhos estavam abertos. Eu não queria acreditar, mas era mesmo. Era ela, ela está aqui.
Fiz um esforço e olhei para todos os lados. Não a vi, até que vi uma figura a sair da escuridão. Era ela. Continuava igual. Coraline continuava a ser aquela menina de 11 anos assustadora, com o vestido todo sujo e comprido, com cabelos largos pretos todos estragados. Ela continuava a ser aquela menina sangrenta.
As últimas imagens dela transformada naquele ser horrendo vieram rapidamente aos meus pensamentos mais profundos. Não a queria voltar a ver a naquele estado!! E ainda não percebo como estou viva, como sobrevivi aquilo. Mas, se calhar nem estou viva... Devo perguntar-lhe? Não! Não consigo! Tentei confiar nela, mas ela não tem um animo estável. Ela não é de confiança, ninguém deste mundo é, a excepção deste ser que me carrega nas costas.
Ela aproximou-se de mim e Baco afastava-se dela, sem eu pedir. Ele teria medo dela?
"Então, rapaz, não fujas de mim" Disse Coraline dirigindo-se a Baco, com um sorriso na face.
Eu não detive Baco. Se ele tinha medo, é porque, realmente, Coraline não era uma boa peça neste puzzle.

Ela olhou para mim. Mirava-me de uma maneira estranha. Não sabia se ter medo ou outra coisa do género. 
"Olá" Pausou "Molly". Sorriu.
Nada lhe disse, pois pensava no como ela sabia o meu apelido, ou melhor cognome. Esse nome, Molly, foi-me dado lá na escola desde o infantário pelos meus colegas. Todos me chamavam assim. Era um nome carinhoso. Só as pessoas mais queridas a mim é que o usavam.
"Então, Molly, não dizes nada?" Surpreendeu-se. "Não me chames de Molly" Disse-lhe calma, pois, dentro de mim, estava a morrer do medo que tinha daquela criatura. "Mas, porque, Molly?". Ela queria irritar-me!? Ela não percebe o que lhe digo?! "Não chames, e já está." Revirei-lhe os olhos. "Ok, não direi o teu nome." "Obrigada" Bufei. "Mas..." Continuou. "Mas o que?" Perguntei com remorsos do que podia vir vindo dela. "Só não direi o teu nome, ou melhor cognome, se ficares comigo." Sorriu. "E porque faria eu tal coisa?" Disse-lhe indignada. "Bem, há razões para eu querer estar contigo... Mas podes vir a bem..." Pausou novamente "Ou podes vir a mal." Riu.
Fiquei a olhar para ela. Baco não me podia defender, eu tenho a certeza disso. Ambos são criaturas monstruosas, mas sei que Coraline é mais forte que Baco.
Olhei para Baco, que se encontrava assustado com esta situação toda. Eu tinha que ir com ela, não quero voltar a passar pelo que passei antes.
"Rápido, estou há espera" Disse Coraline. "Ok" Disse baixinho. "Mas... Eu vou-te fazer perguntas e vais ter que me responder a tudo." Ela ficou a olhar para mim, sem dizer uma única palavra, até que pronunciou "Como queiras".
Ela começou a andar na direção oposta a mim. Dei coragem a Baco e fomos os dois atrás dela.
Ela andou entre umas árvores e muros. Como tudo neste lugar, eram coisas e plantas velhas. O cheiro já não era tão forte, mas podia ser do habito. Não conhecia este sitio, mas sabia que ainda nos encontrávamos naquele bairro.

Pedia a Baco para nos juntarmos mais a Coraline, e assim o fez. Esperei um pouco, e sem olhar para a figura dela, perguntei-lhe "Quanto tempo estive enterrada?". Ela devia saber responder a isto, certo? Afinal, foi ela que me matou. 
Esperei um pouco até que ouvi-a responder "10 anos". Nada respondi, limitei-me a engolir a resposta dela. "10 ANOS!?" Pensei. Eram demasiados anos, e se só "acordei" dez anos depois... Que queria isto dizer? 
"Então... Eu morri?" Perguntei-lhe. "Ohh... Tu não "morreste", tu estás." Respondeu-me sem me encarar. "Porque isto não me surpreende?" Pensei para mim.
Recordando histórias passadas, quem não morrer em paz ficará aqui para sempre, e quem morrer em paz irá para o céu. Ou seja... Não morri em paz? Mas... Tenho que pensar com calma, digerir isto tudo. Uma coisa de cada vez.
Vamos ver os factos. Estou morta. Não morri "em paz". Estou no bairro com Coraline. Coraline disse-me que os habitantes de cá que não morreram em paz foram transformados, e que só um deles, Coraline, seria a criatura do diabo, ou algo do género. Que serei eu?
 


(Amanhã publico a parte 4)

Sem comentários:

Enviar um comentário