"Senti um pouco de poeira a passar pela minha cara, e logo abri os olhos. À minha frente, onde estava o monstro, encontrava-se um enorme piano de cauda. Era branco, e estava limpo. Não havia rastro do monstro, teria desaparecido.
Aproximei-me do piano, onde de lá saiu um banco. Sentei-me e comecei a tocar uma melodia. Era calma, mas comecei a revoltar-me. Eu, estava apenas a tocar os meus sentimentos.")
A melodia tinha partes calmas, mas atrás vinham partes bruscas e algo perigosas. Eu, tocava o grande piano com os olhos fechados. As minhas mãos pareciam penas. Eu mesma parecia. Sentia-me bem naquele momento, e eu nem sabia que conseguia tocar assim.
Abri um pouco os olhos vendo o monstro a levantar-se serenamente. Parecia que o controlava com o que fazia. Com o piano.
Toquei umas últimas notas e parei, calma e com paz. Olhei novamente para o monstro que tinha um ar sereno nele. Levantei-me, devagar, olhando-o nos olhos. A cor do pelo dele estava a mudar. Agora era branco acinzentado. Parecia mais manso. Aproximei-me dele, com a mão direita levantada para ele. Ele mexeu-se um pouco e por instinto escondi a minha mão. Vi que ele não ia fazer nada, então voltei a por a mão perante o seu olhar. Toquei-o. O pelo dele era meigo comigo. Os olhos transmitiam confiança. Não era tão mau como pensava.
Ele agarrou em mim, suavemente, e colocou-me à esquerda um pouco afastada dele. Meteu-se de gatas. Li a mente dele. Ele seria o meu método de transporte.
Ao certo não sabia onde estava, nem nada do que tinha acontecido, mas consegui ter confiança neste animal.
Olhei para os olhos dele e disse-lhe "Baco, esse será o teu nome a partir de hoje." Não sei se é de mim, mas parecia mesmo que ele tinha acabado de sorrir com os olhos. Parecia que ele me compreendia, que me percebia. Será? Não sei... Eu não sou nenhum monstro... Penso eu.
Sentei-me em cima de Baco agarrando-o com força para não me soltar. Ele olhou para mim, e fiz um movimento para à frente dizendo "Vamos".
Baco começou a correr. Baldes de vento iam contra o meu rosto, impedindo-me de visualizar as coisas bem.
Fui um longo caminho, mas Baco parou. Tinha a respiração pesada, afinal, ele estava cansado.
Vi à direita um pequeno lago com água. Olhei para Baco, que me mirava com olhos doces, e apontei para o pequeno lago. Ele aproximou-se do lago, agachando a cabeça e metendo a língua de fora metendo-a na água. Ele começou a beber, estava a matar a sede.
Sentei-me numa pedra olhando para ele. Eu esperava. Esperava sem pensar. Nada vinha à minha mente.
Baco terminou de beber. Voltei a subir para as costas dele. Desta vez, ele não correu. Fomos calmamente até o final do caminho.
Chegamos a um sitio que me era bastante familiar. Memorias começaram a invadir a mente. Começaram a aparecer, na minha cabeça, monstros e zombies. Também aparecia uma menina onde dizia repetidamente Coraline. Tudo passou-me "à frente dos olhos". Comecei a lembrar-me do que tinha passado, do que tinha sentido, do que tinha sofrido.
Já me lembrava, eu agora estava no bairro, o bairro que eu tanto temia, que eu tanto tinha medo. As coisas continuavam iguais. Tudo destruído, queimado e podre. Numa situação normal era impossível alguém viver aqui, mas lembrem-se... Não estou num sitio normal, estou num bairro fora do mundo normal. Um sitio onde tudo o que é chamado de "normal" cá, para mim é paranormal.
Mantive-me estável em cima de Baco. Sabia que com ele iria estar bem. Sei que ele não é como Coraline. Acho que Baco me percebe.
Ele continuou a andar. Cada passo que ele dava eu ficava insegura. As memorias era muito frescas. Não sei quanto tempo estive enterrada ao certo, mas com o que estou a ver, parece que foi há muito.
O pior disto não era o aspeto horrendo, nem o cheiro do local, mas sim o silencio infernal que se encontrava.
Do nada ouviu-se uma voz fininha, aguda e arrepiante, de menina a dizer "Bem vinda de volta Molly". O meu mundo parou aqui.
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